junho 24, 2010

Mal cheguei e já mudei…

por fabio_piva

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junho 17, 2010

Verde e amarelo

por fabio_piva

por @fabio_piva

Eba, começou a Copa do Mundo! Muito futebol, festa, alegria e dias de descanso quando o Brasil joga. E nem adianta procurar que você não encontrará melhor justificativa que essa para reunir os amigos e familiares em churrascos completamente deslocados no meio da semana, ou gritar palavrões desconsolados sem ser julgado por seus vizinhos — mesmo aqueles mais religiosos, afinal, Deus te ama, mas não ama a escalação do Dunga (e estou certo de que isso está escrito em algum lugar na Bíblia). Tudo muito legal, bonito e verde amarelo.

E junto ao comércio, parece que a moda e o bom senso também fecham em tempos de Copa. Digo isso com embasamento estatístico: Nunca, em nenhuma outra época, a breguice anda mais em voga do que nos anos de campeonato mundial. E é muito triste que justamente eu, ser desprovido de qualquer noção idumentária que sou, seja o responsável por observar um fato que é tão preocupante quanto óbvio: Não é porque é ano de Copa que sair de casa trajando verde e amarelo se torna algo aceitável. Ou não deveria ser aceitável, pelo menos.

Analisemos friamente: Se uma menininha saisse de casa vestindo uma sainha verde, ressaltada por uma blusinha amarela e só, talvez nem existisse razão para tamanho alarde; seria, quando muito, apenas mais uma razão clássica para sentir vergonha alheia da infeliz — verde não combina com amarelo, e ponto; não há ufanista que possa argumentar o contrário. O que faz do problema um atentado aos olhos dos sensatos, digno de ser considerado uma calamidade cultural, são a imensa quantidade de esmaltes, aparelhos dentários, perucas (!!!) e demais penduricalhos patrióticos que são disponibilizados nesta época para todos os fiéis torcedores do impávido colosso. Disponibilizados e consumidos compulsivamente.

O que me incomoda é, por exemplo, entrar numa padaria com fome e pressa para comprar o almoço, e ser detido pela visão dantesca de um filhote de cruz-credo bêbado, ostentando uma cabeleira artificial que faz lembrar uma espécie de Biro-Biro saído de uma sessão de tingimento com Policarpo Quaresma. E nem entro nos méritos das menininhas com unhas de cores alternantes — adolescentes já estão habituados ao ridículo por natureza e em qualquer época, e por isso merecem uma análise mais profunda em um texto futuro. O verde e amarelo nos adolescentes é perfeitamente previsível, infelizmente.

Mas nem tudo são cores. Outra maldição vinculada à Copa do Mundo são as malditas cornetas — que este ano, em particular, chamam-se “vuvuzelas” por alguma razão aborígene. Tenho vontade de pegar o infeliz que teve a brilhante idéia de utilizar estes pobres instrumentos musicais para fins futebolísticos e fazê-lo engolir uma orquestra sinfônica inteira — pelo rabo. Este mesmo pensamento doce se estende aos pais de torcedores-mirins, que permitem que suas crias as utilizem para produzir a maior quantidade possível de barulho nos horários mais impróprios — tal como domingo às nove horas da madrugada.

Espero que este humilde desabafo não lhe transmita, paciente leitor, uma falsa impressão de que este texto foi motivado por eu não gostar de futebol, ou estar profundamente incomodado com a festança que a Copa do Mundo representa para o nosso ‘país do futuro’. Porque eu não gosto mesmo, e estou mesmo — mas não foi isso que me motivou. O que me inspira a execrar o comportamento débil que se instaura em nossa sociedade nesses tempos difíceis é apenas o desejo honesto de não fazer parte dessa baderna toda — nada mais. E talvez a impressão aterradora de que vivo, a cada quatro anos, em uma terra governada pelo daltonismo e alardeada por trombetas de plástico vagabundo.

junho 11, 2010

Bom dia

por fabio_piva

por @fabio_piva

Ei, psiu… Você aí, que já acorda todo contente, saltitando pelos campos. É, você mesmo, que se levanta alegre no domingo por ainda não ser segunda, e também na segunda porque… ah, porque a vida é bela e é preciso ser feliz. Você, que sorri para as manhãs ensolaradas porque são belas, e também para as chuvosas, porque a chuva molha as plantinhas — e as plantinhas são, como todos sabem, nossas amigas. Eu estou aqui para lhe dizer que o apóio incondicionalmente. Mas não o compreendo.

Na verdade, não só não compreendo como não posso nem argumentar em favor de alguém que acorda de bom humor — quando a natureza obviamente tomou todas as precauções para que pudéssemos ostentar nosso mau humor matinal sem que isso sequer interferisse no bom andamento da humanidade. Reparem: Acordamos fotossensíveis, de cara amassada e exalando odores duvidosos, de forma que nenhum outro membro da espécie deveria sentir-se particularmente inclinado a aproximar-se de nós nas primeiras horas do dia. E mesmo quando algum desavisado insiste em fazê-lo, estará relativamente seguro: Nesse período, nosso mau humor é proporcional à nossa falta de agilidade, o que nos garante desvantagem considerável no caso de cedermos à tentação de encher o mala de porrada. Parece que a evolução favorece os primeiros clientes diários das padarias.

Por esta razão, não acho que exista no mundo cumprimento mais cínico que o “bom dia”. Receber quem chega logo cedo com “bom dia” é, ao meu ver, a maior indelicadeza que se pode cometer, e está no mesmo patamar que saudar com “seja bem vindo!” quem chega para ser internado em uma clínica de rehabilitação, ou despedir-se com um “volte sempre!” de quem sai de um hospital. “Bom dia, Fabio!” pode ser facilmente traduzido para “Rá, você também se fodeu por ter que estar aqui tão cedo, Fabio!”. Um “meus pêsames” ou talvez um “que droga, né?” seria muito mais autêntico e — isso sim — coisa de amigo, mesmo.

A carga negativa do “bom dia” só vai se atenuando à medida que a manhã mingua, ou seja, ao passo em que se torna mais adequado o jovial e — esse sim, muito mais acolhedor e educado — “boa tarde”. O “boa tarde” traz implícito a idéia de satisfação por você só ter dado as caras quando já é humanamente plausível de se estar de pé — ou seja, após o meio dia. Algo como “Oi. Estou muito feliz por não tê-lo encontrado até agora – espero que tenha estado na cama até dez minutos atrás”. E mesmo o mais vil dos “boa tardes” ainda é muito melhor que qualquer “bom dia” — basta notar que um sarcástico “boa tarde, né?” equivale a um “Notei sua ausência até o presente momento, e o invejo mortalmente por isso”.

Por todas essas razões, muitos de nós evitam acordar antes do meio dia, e isso nos rende a inevitável fama de preguiçosos. O que é, em geral, de uma ironia tremenda — pois o sujeito que me chama de preguiçoso é o mesmo que acorda todos os dias cedinho, descansado após uma deliciosa noite de sono, enquanto eu estou indo dormir após trabalhar feito doido madrugada a dentro. E nem me venha com justificativas saudáveis para madrugar: Eu nunca, em hipótese alguma, nem se minha vida sedentária dependese disso, sairia da cama com algum propósito saudável como correr, respirar o ar puro da manhã ou algo que o valha. O sol da manhã reage sobre mim como se eu fosse um vampiro (desses antiquados que não brilham, a saber), e o sereno é a minha água benta.

Por isso, se eu em alguma oportunidade não te desejar um bom dia, não se ofenda — talvez eu só esteja sendo educado. Talvez só esteja esperando mais algumas horas para desejar-lhe um “boa tarde”. E procure não me julgar por detestar as manhãs — ao invés disso, ofereça-me um café e seja tão paciente com o meu mau humor quanto eu sou com o seu bom humor. Prometo que assim, nos daremos melhor.


Imagens Mean Cards

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junho 4, 2010

Protejam-se: O amor está no ar

por fabio_piva

Por @fabio_piva

Minha intenção era originalmente a de escrever sobre o Dia dos Namorados, mas temo que a ficção não seja o meu forte. Pois convenhamos, um pedacinho do calendário ter sido reservado pelos deuses unicamente para que os casais pudessem celebrar seu amor é algo tão crível quanto a Páscoa ser propiciada por coelhos coloridos ovíparos que vêem no chocolate um modo digno de reprodução. E após muita reflexão, cheguei à conclusão de que o verdadeiro motivo para celebração no dia doze de junho não poderia ser outro: Comemoramos o Dia dos Encalhados.

Afinal, nada mais justo — é precisamente disso que se trata o décimo segundo dia do sexto mês. Conheço incontáveis casais de Namorados, bem como incontáveis Encalhados. Do primeiro grupo, apenas uma pequena parcela, composta essecialmente por pessoinhas cuti-cuti e de memória invejável, se lembram de comemorar a data. Mas nenhum dos Encalhados JAMAIS esquece.

E como poderiam? À medida que nos aproximamos do mês das noivas, o mundo vai se tornando um lugar cada vez mais insuportavelmente açucarado. Casais tornam-se progressivamente mais grudados, metamorfoseando-se em uma massa clichê e quase disforme de amor e breguice — o que obriga o Encalhado a afastar-se do convívio social até que a data passe. Richard Marx retorna às rádios com sua melosa “Right Here Waiting”, que para o Encalhado, soa como o convite de uma inevitável velhice sem filhos ou netos — e nem entrarei nos méritos da cafonice resgatada todos os anos por “Love Is In The Air”. Até os cinemas apresentam-se como ambientes hostis aos ímpares: Cada beijo estalado parece ser emitido unicamente com o propósito cruel de reverberar no interior das orelhas solitárias daqueles pobres ermitões emocionais. A crueldade dos afetivamente favorecidos não tem limites.

Da mesma foma, a tão discutida movimentação econômica que ocorre por conta do pseudo-Dia-dos-Namorados é protagonizada não pelos apaixonados, mas sim por aqueles que não tem ninguém para presentear. Chocolates, por exemplo. Embora um punhado de moças de fato recebam caixas de bombons de seus namorados, estes sendo rapazes dotados de invejável de criatividade, são os Encalhados — aqueles mártires do coração — quem consomem compulsivamente os doces, nessa época; se o fazem em substituição ao sexo inalcansável, ou em uma tentativa kamikaze de suicídio por hiperglicemia, não sei dizer.

Mas que fique claro: O Encalhado clássico não é senão uma evolução natural da espécie humana. Seu bom senso é muito mais apurado, o que lhe permite observar que apelidinhos carinhosos pronunciados com vozinha de criança são nada mais que ricas fontes de vergonha alheia. Ele também preza muito mais por sua individualidade, e não demora a escurraçar qualquer infeliz que a ameaçe — mesmo que isso o arraste de volta à estaca zero afetiva. No entanto, e contrariamente ao que acreditavam os círculos científicos, este primata aprecia muito o coito — só não tem a paciência exigida pelo protocolo social burocrático que precede a sua obtenção.

Por todas estas razões, caro leitor, não acho justo comemorarmos o Dia dos Namorados. Devemos, ao invés disso, homenagear e admirar os Encalhados, estes esclarecidos diabéticos afetivos. Portanto, deixo aqui a minha sugestão: No próximo dia doze, ao invés de optar por algum programinha romântico detestável, convide seus amigos Encalhados para uma pizza. Compense-os por todas as vezes em que você pulou o futebol, recusou convites para ir às compras ou simplesmente privou-os da sua companhia num domingo à tarde — tudo porque seu companheiro(a) é adesivo demais para dividir você com o mundo exterior. E agradeça-os sinceramente pela paciência — sem ela, suportar você e seu “docinho de côco” nos demais 364 dias do ano seria simplesmente impraticável.

maio 28, 2010

Sem perdão para os chatos

por fabio_piva

Gostaria de começar este texto mandando cerca de metade da população mundial para um lugar bem feio, mas isso seria muito indelicado de minha parte. Por isso, deixarei que o xingamento permeie sutilmente por estas linhas e torcerei para que as pessoas certas vistam a carapuça.

O que não deveria ser nada difícil, diga-se de passagem. Em minha relativamente curta passagem por estas bandas terrenas, tenho reparado que o que mais há por aí é gente que cuida da vida alheia. Estes representantes indignos da espécie constituem uma classe tão organizada e sólida da raça humana, que recebem até alcunha própria: Os chatos. E se você está achando que este é um texto direcionado a alguém especial, se engana — neste preciso momento, garanto-lhe que há alguém tecendo considerações descabidas sobre você, sobre este autor e até mesmo sobre aquele tiozinho gente boa que vende cachorro quente na esquina. E nem adianta gastar seu latim tentando adestrar estes seres de prioridades duvidosas: Você vai falhar.

Felizmente, vivemos em tempos em que para cada problema existe uma solução. E a mais eficaz, aqui, é aquela a que todos nós temos acesso desde que nos tornamos capazes de balbuciar as primeiras sílabas: O palavrão. Marginalizado por uns, censurado por outros, o fato é que existem poucas coisas mais eficientes que um palavrão bem direcionado para abordar os chatos. “Todo mundo merece uma segunda chance, menos os chatos”. Mas merecem palavrões, são muito dignos deles.

Não há nada mais prazeroso que mandar alguém à merda, especialmente alguém desocupado o suficiente para crer que tem direito de opinião sobre a roupa que você veste, a asneira que você come, o cigarro que você fuma. E não só crê no tal direito como o exerce quase que tão naturalmente quanto respira. Por esta razão, são os chatos que nos proporcionam um deleite quase orgásmico quando exibem as mais desconcertadas expressões de surpresa ao ouvirem um sonoro “Vá à merda”.

Isso mesmo, meus amigos, um xingamento a um representante daquela classe provoca a mais genuina surpresa — sempre. Porque os chatos, além de serem chatos, não tem consciência deste fato. Na verdade, todo chato que se preze se acha a pessoa mais legal do mundo. Sua voz é a mais melodiosa, sua companhia a mais agradável, seus comentários os mais lisonjeiros. Ninguém sensato poderia imaginar que ele é um chato, não ele. Na verdade, ele odeia os chatos com todas as suas forças, e até manda alguns à merda por iniciativa própria. E olha para trás, incrédulo de que é com ele, quando você finalmente perde a paciência, enche a boca e solta: “Vá à merda”.

Mas não podemos ser radicais. Até mesmo os chatos tem o direito de existirem, os pobres. Apóio seu movimento, e até mesmo prontifico-me a erguer bandeiras pró-chatice — tudo pelo direito de ir e vir dos nossos primos desprovidos de ‘semancol’. Mas suplico que o façam bem longe de mim, para evitarem o constrangimento de serem enviados à merda.

Assim, posto que a extinção dos chatos está fora do nosso alcance, sugiro a reinstauração imediata do palavrão em todos os círculos sociais como medida sócio-educativa. Acabemos com o exílio, anistia ao palavrão! Ensinemos a nossos filhos, e aos filhos de nossos filhos, esta dádiva cultural tão injustiçada e efetiva para a manutenção do convívio social. E se não concorda, se acha que não existe nada mais feio que um xingamento, que não passa de agressividade injustificada: Você é um chato e este texto é para você. Vá a merda.

O autor no twitter: @fabio_piva